A arte de (tentar) não ser chato nas redes sociais

Eu adquiri preguiça de discutir nas redes sociais. Porque considero infrutífero. As pessoas, de um modo geral, não estão abertas a buscar informação ou aceitar argumentos opostos. Todos querem, na verdade, apenas confirmar a narrativa que afina com suas crenças e referências pessoais.

É algo que percebo dos assumidamente radicais aos enrustidos que se dizem isentões, mas que sempre pendem pra um lado específico quando a coisa aperta. Não há espaço para reflexão, nem margem para convencimento.

Isso vale pra mim, pra você e para qualquer pessoa que vai visualizar, curtir ou comentar este post. Não há escapatória. Todos temos um lado, mesmo que a gente não perceba, e todos tentamos o tempo todo convencer as outras pessoas que ele está certo e, o pior, que o outro está absurdamente errado.

O esforço necessário que precisamos fazer é o de não nos tornarmos inconvenientes, nem agressivos, tampouco desrespeitosos uns com os outros. É difícil? É. Mas é um exercício permanente. Talvez seja o desenvolvimento da arte de tentar não ser chato.

100 anos bicolores no @ReporterE: Payxão Alviazul

O estudante de jornalismo Gustavo Ferreira fez no seu blog Repórter E um especial para celebrar o centenário do Paysandu com textos de vários bicolores.

O meu foi publicado justamente no dia do aniversário do Papão, confira:

LOGO - CEM ANOS BICOLORES

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A Mina de Fé

Chegou exausto em casa após uma partida de futebol com os amigos. De tão cansado, nem tomou banho e foi se deitar. Dormiu cedo, o que não é de seu feitio. O sono foi interrompido pelo bip do celular. Era mensagem de uma ex-namorada com quem havia perdido contato há muito tempo.

Ela queria notícias, sonhara com ele e foi um sonho ruim. Ele respondeu a mensagem imediatamente e logo combinaram de se encontrar. Na mente pervertida dele isso era um pretexto. Esse papo de ter sonhado com a pessoa é mais velho que a posição de defecar, pensou. Ele tinha certeza que do reencontro aconteceria um tórrido romance regado ao bom e velho sexo louco estilo africano.

Chegaram juntos no local marcado. Era o mesmo da época em que namoravam. O dia estava ensolarado. Os olhos de ambos brilhavam, as mãos se entrelaçavam e os sorrisos transbordavam. Não demorou muito e já estavam conversando como se nunca tivessem se afastado e o papo fluiu tranqüilo. Ambos estavam curiosos e trocavam perguntas.

Em dado momento ele perguntou se ela estava solteira. Ela respondeu com o gesto de cabeça que denota afirmação, pausou a fala e fez aquela expressão feminina internacionalmente conhecida como cara de me beija. Ele sabia ser aquele o momento de dar o bote e liquidar a fatura. Em um “culhonésimo” de segundo ele decidiu seguir em frente e obedecer ao pedido feito pela expressão corporal dela.

Se fosse uma partida de futebol narrada pelo Galvão Bueno, certamente o locutor global diria que a bola passou por sobre a trave após o chute. O beijo foi simplesmente rejeitado com um jogo de cintura de um boxeador que foge do cruzado de direita. Assustada, ela disse que havia uma grande confusão nisso tudo. Ela confirmou que estava solteira, mas que havia outro alguém na vida dela.

Ela o descreveu como um barbudo, de longas madeixas castanhas e olhar profundo. Ele questionou se Ele é hippie, já blasfemando todo o movimento contracultural dos anos 60. Ela negou e disse o nome Dele: Jesus. O desejo de não acreditar no que estava se configurando diante de seus olhos o fez supor que o rapaz mencionado pudesse ser um bailarino latino-americano.

Ele não percebeu as iniciais maiúsculas nos pronomes que ela usava para se referir ao Homem. Depois de muita conversa, e nenhum beijo, ela explicou que o referido Jesus é filho de Deus e que ela havia se convertido para a Igreja Quadrangular. Ela se dizia feliz. Convertera-se após uma frustração amorosa com o namorado posterior a ele. Tornara-se evangelizadora e o interesse que ela nutria por ele nada tinha a ver com a carne e sim com o espírito.

Conversaram um pouco mais, só para não dar muito na vista a decepção mútua. Não demorou muito e ele se despediu com um beijo no rosto – por opção dela – e foi embora com um ar de fracasso. Meses depois ela o convidou para um retiro espiritual. Ele recusou, preferiu o Pagode do Hilário. Nunca mais se reencontraram.