Histórias do jornalismo: o caso Escola Base

Em 2014, o Caminhos da Reportagem (TV Brasil) dedicou um programa de 50 minutos para mostrar o que aconteceu 20 anos depois.

Uma das minhas aulas favoritas da disciplina Técnicas de Apuração e Pesquisa Jornalista é a que eu apresento aos meus alunos um dos erros de apuração mais emblemáticos da história do jornalismo: o caso da Escola Base.

Na oportunidade fazemos uma reflexão acerca da importância da apuração e da gravidade de veicular notícias sem o devido cuidado técnico com as informações. Este exercício de empatia é feito com a exibição dos três vídeos curtos abaixo:

Quem quiser entender com mais profundidade o episódio e seus desdobramentos, recomendo assistir o programa Caminhos da Reportagem que a TV Brasil produziu em 2014. São 50 minutos dedicados para destrinchar o caso.

Março de 1994. Duas mães denunciam os donos de uma escola infantil, um motorista do transporte escolar e um casal de pais de um aluno por abuso sexual. A acusação é aceita pelo delegado e noticiada como um furo de reportagem pela TV Globo. A imprensa passa a cobrir a história em que os protagonistas são crianças de 4 anos, e o delegado passa do anonimato às manchetes dos jornais.

A escola e a casa de uma das professoras são invadidas e depredadas. Quando vão à delegacia para obter os detalhes da acusação, os donos da escola sofrem com o abuso das autoridades. Sem provas, o inquérito policial é arquivado, mas a vida dos acusados nunca mais seria a mesma.

Por que mais de uma criança contou a mesma história ao delegado? Por que a imprensa embarcou na acusação do delegado? O Caminhos da Reportagem refaz o quebra-cabeças de um caso que é até hoje estudado nas faculdades do país.

Assista:

  • Ficha Técnica:
    • Reportagem: Gustavo Minari.
    • Produção: Aline Beckstein, Fernanda Balsalobre, Luana Ibelli, Mariana Fabre e Thaís Rosa.
    • Imagens: Edina Girardi, Eduardo Viné e Marcelo Yves.
    • Auxiliares: Edgar Monteiro, Rodrigo Mattos e Raimundo Nunes, Valdemar.
    • Edição de Imagens e finalização: Caio Cardenuto, Fábio Montes e Vanessa Nascimento.
    • Direção: Bianca Vasconcellos.

Recomendação Extra: Também há um livro relatando o caso. A obra se chama Escola Base, de Emílio Coutinho e tem prefácio de Heródoto Barbero. Foi publicado pela editora Casa Flutuante e custa apenas R$ 40. Compre neste link.

Façam barulho, estamos em aula! #JornalistaValeMais

Turma do curso de jornalismo da UFPA participou de aula especial com jornalistas em greve do grupo RBA e representantes do Sinjor

Estudantes de jornalismo, professores da UFPA e jornalistas unidos pelo piso salarial e condições dignas de trabalho.
Estudantes de jornalismo, professores da UFPA e jornalistas unidos pelo piso salarial e condições dignas de trabalho. Foto: Mídia Ninja

Nesta quinta-feira (26) a greve dos profissionais do Diário do Pará e do DOL, em prol do piso salarial (de R$ 1.900) e condições dignas de trabalho, completou uma semana. Mas isso não aparece na mídia tradicional, nem no concorrente. É clara a tentativa patronal de tentar ganhar no cansaço e desarticular o movimento.

Os jornais estão saindo e o portal atualizado numa operação que consiste no aumento abusivo da carga de trabalho de quem não optou pela greve, no “empréstimo” de funcionários dos outros veículos da empresa (como Rádio Clube e TV RBA) e na contratação de “free-lancers” para complementar a equipe.

Para entender um pouco mais a respeito, também vale a pena assistir o debate “Quanto vale um jornalista?” que aconteceu na quarta-feira, 25 de setembro de 2013, às 20h, no Sindicato dos Jornalistas do Estado do Pará:

Sabendo que pela imprensa nada será dito e as redes sociais, por mais que ajudem bastante, não conseguem transmitir completamente a realidade do que está acontecendo, eu e Brenda Taketa, professores da UFPA de Laboratório de Jornalismo Impresso I (respectivamente Planejamento Visual e Redação), com a autorização do professor Ronaldo Guerra (Fotojornalismo), planejamos uma aula com nossas turmas no epicentro deste importante momento de luta da nossa profissão: a frente do prédio do grupo RBA/Diário do Pará.

Aula na Greve

A proposta de levar os estudantes, calouros em seu primeiro ano de universidade, para esta aula ao ar livre teve como objetivo orientá-los a observar com olhar crítico tudo o que está acontecendo, ir à rua pra ver de perto e conversar com pessoas, até porque mesmo com todas as tecnologias disponíveis, nada substitui a experiência de vivenciar os fatos. Eles ouviram pessoalmente relatos dos editores, repórteres, fotógrafos e todos os que estão envolvidos na causa.

2013-09-27 01.14.06

O principal disso tudo era fazer com que eles saibam que esta causa é mais deles do que dos próprios grevistas, pois se os profissionais que estão na paralisação tem futuro incerto no jornal, os avanços almejados com a tão esperada negociação poderão ser capitalizados por estes estudantes e futuros jornalistas quando estes assumirem tais postos de trabalho.

Mensagens de solidariedade deixadas pelos estudantes para o movimento #JornalistaValeMais.
Mensagens de solidariedade deixadas pelos estudantes e professores para o movimento #JornalistaValeMais.

Logo após a aula recebemos diversas mensagens, mas vou compartilhar aqui a primeira (e uma dos mais emocionantes) que tivemos a honra de ser mencionados pela aluna Julianna Leão, no facebook:

Obrigada aos professores Pedro Loureiro de Bragança e Brenda Taketa por nos dar a oportunidade de vivermos esse momento histórico no jornalismo paraense ao lado dos meus colegas de turma. Nunca mais veremos o nosso curso sob a ótica do conformismo. Vocês são os melhores!

Agradeço mais ainda aos jornalistas do Diário do Pará e DOL, por transformarem um cenário do qual eu e minha turma da faculdade faremos parte daqui 4 anos. Força e coragem aos grevistas, e obrigada por estarem lutando para melhorar as condições nas quais nós, estudantes, futuramente faremos o que mais amamos: jornalismo.

Contem conosco! Essa luta é de todos nós!

#JornalistaValeMais

Junto das tantas outras, esta mensagem valeu o nosso dia – quiçá a nossa semana, o mês – porque mostra que aprenderam a lição e serve de estímulo para nós, que ainda estamos muito longe de ser os melhores, mas que a cada dia tentamos fazer o melhor dentro das nossas próprias limitações.

Raphael Castro, estudante de jornalismo da UFPA.
Raphael Castro, estudante de jornalismo da UFPA.

Muito obrigado a todos os estudantes presentes nesta que considero a aula mais importante que já tive oportunidade de planejar (acho que a Brenda pensa da mesma forma) e também transmito nosso agradecimento com imensa solidariedade a todos os que estão participando deste momento histórico.

A Ciranda dos Gatos Pingados

Ciranda dos "gatos pingados". Foto: Mídia Ninja.
Ciranda dos “gatos pingados”. Foto: Mídia Ninja.

Vou encerrar este post com música, mas antes preciso contar uma história: quando a greve estava prestes a se deflagrar, um funcionário do grupo RBA a pormenorizou no Facebook dizendo que “meia-dúzia de gatos pingados não fariam a diferença”.

Isso serviu para multiplicar a quantidade de “gatos” no movimento, que chegam a dezenas nos atos públicos e quase dois mil curtindo a fã-page da greve (que tem apenas uma semana de existência). Desde então a canção “História de uma gata” (versão de Chico Buarque, no filme Saltimbancos Trapalhões) virou tema do movimento #JornalistaValeMais e cirandas como a da foto acima são sempre reproduzidas nos atos ao som da canção:

A música é linda e o tema não podia ser mais adequado. Recomendo a quem ainda não viu, que assista (e quem já viu, que reveja) urgentemente o filme de onde ela se origina, pois com toda inocência infantil consegue contar uma bonita história sobre luta de classes:

Os Saltimbancos Trapalhões é um filme brasileiro de Os Trapalhões, baseado na peça teatral Os Saltimbancos, de Sergio Bardotti, Luis Enríquez Bacalov e Chico Buarque, por sua vez uma adaptação do conto Os Músicos de Bremen dos Irmãos Grimm. Foi dirigido por J. B. Tanko e lançado em 1981.

Então finalmente concluo este post gigantesco, porém necessário, com a canção que encerra Saltimbancos Trapalhões e que diz em sua letra “todos juntos somos fortes, somos flecha e somos arco. Todos nós no mesmo barco, não há nada pra temer” para encorajar a classe jornalística a se unir e perceber que só desta maneira pode ser minimamente respeitada pelos “barões” da mídia: