Samba do Nirvana

Há exatos 15 anos, Kurt Donald Cobain botou uma azeitona de chumbo em seu cérebro e pôs fim à própria vida. Neste dia acabou a primeira grande banda de rock da minha geração. Cobain morreu, mas Nirvana vive pra sempre em meu coração (que fofo isso, né?).

Em 2004 – ano seguinte ao que compus o Samba do Trabalhador Braçal – a morte de Kurt completou 10 anos e para homenageá-lo rabisquei estes singelos versos como se fossem de um samba-enredo que homenagearia a maior banda grunge de todos os tempos. Imaginei até a escola de samba fictícia: G.R.E.S. Unidos de Seattle. Deu nisso:

Grunge, drogas e rebeldia: Kurt Cobain é Seattle na Sapucaí
(Letra e Música: Pedrox)

[[Um solo de cavaquinho da introdução de “Smells Like Teen Spirit” dá a deixa para a explosão da bateria integrada somente por gente da comunidade.]]

Carregue suas armas
Traga seus amigos
Venha pra Seattle
Curtir uns sambas-grunge
Distorcidos

Na algibeira da angústia
De uma geração perdida
Nirvana é a palavra de acolhida
Que essa gente enternecida
Mostra atitude e devoção

Cobain do Budismo um tanto Kurt
Polly quer uma bolacha
No baixo, Novoselic despacha
Dave Grohl, Dave Grohl
Na bateria é ele quem dá show

E na cabeça um tiro, tirou
A curta vida do compositor
E nossa escola pede passagem
Para fazer a homenagem

Vamos quebrar guitarras
Eu vou
Heroína a gente traça
Vicio-ou
Nirvana representa inquietude
Que a juventude influenciou.

Carregue… carregue suas armas… (Como sempre, repete tudo quantas vezes forem necessárias até a escola cruzar a avenida do samba)

E aí? Tenho futuro no samba?

Samba do Trabalhador Braçal

Se morasse no Rio de Janeiro, eu certamente estaria envolvido na ala dos compositores de alguma escola de samba. Tenho preferência pela Estação Primeira de Mangueira e me encheria de orgulho se um dia emplacasse o samba-enredo de algum carnaval da verde-e-rosa.

A festa da carne já passou, mas nunca é tarde para divulgar aos leitores deste blog um samba-enredo composto por mim. É provável que muito em breve eu o grave e coloque à disposição de quem quiser ouvir, mas por enquanto a letra já dá para ter uma idéia da qualidade da composição.

Este foi o primeiro samba-enredo que compus, surgiu lá pelos idos de 2003. Fala do cotidiano difícil daqueles que usam sua força bruta como instrumento de trabalho. Analisem a letra e comentem se tenho algum futuro no samba.

O cotidiano sujo, suado e sofrido do trabalhador braçal
(Letra e Música: Pedrox)

Sujo
No cais do porto e suado
Onde o estivador cansado
Executa seu ganha-pão

Carregando madeira na estância
Levando maca para ambulância
Trabalha forte pra mudar sua sorte

O trabalhador braçal
É uma pessoa angustiada
Tem que carregar tonéis
De quase uma tonelada

O trabalhador braçal
Leva uma lida sofrida
Obrigado a suportar
Os quilogramas dessa vida
(O trabalhador braçal)

O trabalhador braçal
Dia e noite
Não e sim
Ele chora e canta
Cai e se levanta
Sua labuta não tem fim
Assim samba trabalhador braçal
Que vive sua vida de animal

Ergue a cabeça
Olha pro alto
Trabalhador braçal
Ter um sonho não faz mal
Empurra o alegórico
Trabalhador braçal
És a alegria desse carnaval.

Sujo… (repete a canção toda quantas vezes forem necessárias até a escola cruzar a avenida)

Depois do Prazer Analisada

AlexandrePires-DepoisDoPrazerNo Orkut pululam dezenas e mais dezenas de comunidades destinadas a analisar a obra de algum artista e especular significados às letras de suas canções. Engenheiros do Havaí, Raul Seixas, Legião Urbana, Chico Buarque, etc. Pensando nisso criei uma comunidade destinada a buscar a mais profunda análise do eu-lírico dos compositores deste ritmo brasileiríssimo: o pagode.

Eu criei a comunidade, mas por justiça transferi ao meu amigo, colega de faculdade e também blogueiro Luciano. Foi por merecimento, a final de contas ele fez a análise mais perfeita que alguém poderia ter feito de Depois do Prazer, a canção do Só Pra Contrariar que deu motivou a criação da comunidade. Neste tópico foi concebida a elucubração iniciada por Luciano e arrematada pela Camila Thiers. Esta postagem é dedicada a eles. Veja abaixo esta interpretação definitiva, perfeita para o pós-dia dos namorados:

Depois do Prazer (Só pra Contrariar)

Tô fazendo amor com outra pessoa
Pelo contexto da música “fazer amor” foi mal utilizado sendo preferivel nesse caso, fuder, trepar e similares, pois o eu-lirico possui um só amor verdadeiro

Mas meu coração, vai ser pra sempre seu
Submissão do eu-lirico a pessoa amada

O que o corpo faz a alma perdoa
Verso de alto cunho religioso colocando a alma acima da matéria

Tanta solidão, quase me elouqueceu
O ser humano é um ser social. O isolamento deixa qualquer um louco.

Vou falar que é amor
Vou jurar que é paixão

Crítica ferrenha a falsidade de sentimentos que impera na sociedade do séc. XXI

E dizer o que eu sinto com todo carinho
Pensando em você
Vou fazer o que for e com toda emoção

Esses três versos são uma isotopia que reforçam a idéia anteriormente exposta.

A verdade é que eu minto, que eu vivo sozinho
Uma pista da alma confusa do eu-lirico dividida entre o verdadeiro amor e os prazeres da carne

Não sei te esquecer
E depois acabou, ilusão que eu criei

Aqui o eu-lirico sofre um processo de iluminação de acordo com a doutrina budista

Emoção foi embora e a gente só pede pro tempo correr
Já não sei quem me amou
Que será que eu falei?

Confirmação dos valores Prazer Carnal VS Amor verdadeiro em conflito

Dá pra ver nessa hora que o amor só se mede
Depois do prazer

Segundo freud, o homem vive em busca do prazer ou fugindo do desprazer. O eu-lirico contraria essa ideia dizendo que o prazer não é nada perto do amor, coisa que a biblia já afirmou e que aqui reproduzo para reiterar: “ainda que falasse a lingua dos homens e a lingua dos anjos, sem amor eu nada seria”.

Fica dentro do meu peito
Reparem: fica dentro do peito, dentro da carne. Não fui usado “dentro da memória” ou similar. O eu-lírico possui desejo CARNAL. ele está dividido em seu amor.

Sempre uma saudade
Este verso é carregado de nacionalismo haja vista o termo “saudade” ser uma exclusividade de nossa língua. Isso demonstra o quanto o pagode se preocupa com cultura brasileira.

Só pensando no teu jeito
Eu amo de verdade

Sexo solitário também é amor? Afinal, ele disse que fica “só pensando”…

E quando desejo vem
É teu nome que eu chamo

O DESEJO é o vício da alma humana. Conde Drácula disse que era a vaidade, mas a vaidade é, aliás, nada mais que o DESEJO de você mesmo.
Rebato esses versos com: “eu sei é um doce te amar, o amargo é querer-te pra mim”

Posso até gostar de alguém
Mas é você que eu amo

Eis que a grande mente do compositor o leva a escrever a conclusão mais genial, de forma poética claro: o ser humano não nasceu pra ser monógamo. Como todos animais, o instinto de copular com mais de uma parceiro fala mais alto para garantir a preservação da espécie. No nosso caso, esse fator é reforçado pelo fato de sentimos prazer com a cópula. E, citando Freud novamente, nós sempre vamos, sem sombra de dúvida, viver em busca do PRAZER!

Vou falar que é amor
Vou jurar que é paixão

Aqui o poeta demonstra expressamente o seu entendimento acerca dos sentimentos humanos mais íntimos, ao citar sucessivamente o “amor” e a “paixão”, nos traz de uma forma lírica e profunda os universos distintos e complexos desses dois sentimentos.

E dizer o que eu sinto com todo carinho
Pensando em você

Aqui ele transmite toda a sua retórica e desenvoltura com o verbo, é impressionante a capacidade expressiva do poeta em expor linguisticamente seus profundos sentimentos.

Vou fazer o que for e com toda emoção
A verdade é que eu minto, que eu vivo sozinho
Não sei te esquecer
Aqui ele cava no fundo da alma seus instintos e profundas emoções, é uma abstração com nítidas influências pessonianas, tal qual Fernando Pessoa, ele oscila sua personalidade e passeia pelos heterônimos “A verdade é que eu minto(…)”, o poeta, de fato, é um fingidor.

E depois acabou, ilusão que eu criei
Como todo grande escritor/letrista, o Alexandre é um idealista, capaz de construir um imaginário poético e desmontá-lo com igual poesia.

Emoção foi embora e a gente só pede pro tempo correr
Aqui demonstra-se todo refinamento linguístico do autor ao atribuir materialidade a conceitos abstratos, percebam, a emoção vai embora, o tempo corre, é realmente belo e inspirador a forma como ele articula as palavras.

Já não sei quem me amou
Que será que eu falei?

Aqui ele se perde em seu mundo particular lírico e confuso, a abstração é tamanha que o texto se torna incognoscível às nossas inteligências, ainda limitadas.

Dá pra ver nessa hora que o amor só se mede
Depois do prazer

Por fim, depois de retornar do seu mergulho poético, o autor reune todos seus “eus”, o divino e o carnal, o romântico e o passional, o breve e o eterno numa só identidade, percebe-se a evolução, perpassando por toda dialética observada no texto, para se chegar nesta unidade poética, é um texto realmente belo e poético, ao mesmo passo, que é rico em conteúdo filosófico. Para chorar e refletir.

Entre na comunidade “Analisando: Pagode”.

P.S.: Postagem inspirada na menção desta canção neste texto do Inagaki.