A Mina de Fé

Chegou exausto em casa após uma partida de futebol com os amigos. De tão cansado, nem tomou banho e foi se deitar. Dormiu cedo, o que não é de seu feitio. O sono foi interrompido pelo bip do celular. Era mensagem de uma ex-namorada com quem havia perdido contato há muito tempo.

Ela queria notícias, sonhara com ele e foi um sonho ruim. Ele respondeu a mensagem imediatamente e logo combinaram de se encontrar. Na mente pervertida dele isso era um pretexto. Esse papo de ter sonhado com a pessoa é mais velho que a posição de defecar, pensou. Ele tinha certeza que do reencontro aconteceria um tórrido romance regado ao bom e velho sexo louco estilo africano.

Chegaram juntos no local marcado. Era o mesmo da época em que namoravam. O dia estava ensolarado. Os olhos de ambos brilhavam, as mãos se entrelaçavam e os sorrisos transbordavam. Não demorou muito e já estavam conversando como se nunca tivessem se afastado e o papo fluiu tranqüilo. Ambos estavam curiosos e trocavam perguntas.

Em dado momento ele perguntou se ela estava solteira. Ela respondeu com o gesto de cabeça que denota afirmação, pausou a fala e fez aquela expressão feminina internacionalmente conhecida como cara de me beija. Ele sabia ser aquele o momento de dar o bote e liquidar a fatura. Em um “culhonésimo” de segundo ele decidiu seguir em frente e obedecer ao pedido feito pela expressão corporal dela.

Se fosse uma partida de futebol narrada pelo Galvão Bueno, certamente o locutor global diria que a bola passou por sobre a trave após o chute. O beijo foi simplesmente rejeitado com um jogo de cintura de um boxeador que foge do cruzado de direita. Assustada, ela disse que havia uma grande confusão nisso tudo. Ela confirmou que estava solteira, mas que havia outro alguém na vida dela.

Ela o descreveu como um barbudo, de longas madeixas castanhas e olhar profundo. Ele questionou se Ele é hippie, já blasfemando todo o movimento contracultural dos anos 60. Ela negou e disse o nome Dele: Jesus. O desejo de não acreditar no que estava se configurando diante de seus olhos o fez supor que o rapaz mencionado pudesse ser um bailarino latino-americano.

Ele não percebeu as iniciais maiúsculas nos pronomes que ela usava para se referir ao Homem. Depois de muita conversa, e nenhum beijo, ela explicou que o referido Jesus é filho de Deus e que ela havia se convertido para a Igreja Quadrangular. Ela se dizia feliz. Convertera-se após uma frustração amorosa com o namorado posterior a ele. Tornara-se evangelizadora e o interesse que ela nutria por ele nada tinha a ver com a carne e sim com o espírito.

Conversaram um pouco mais, só para não dar muito na vista a decepção mútua. Não demorou muito e ele se despediu com um beijo no rosto – por opção dela – e foi embora com um ar de fracasso. Meses depois ela o convidou para um retiro espiritual. Ele recusou, preferiu o Pagode do Hilário. Nunca mais se reencontraram.

Brasil, o país da ginástica olímpica

Os jogos panamericanos Rio 2007 revelaram que o Brasil tem imenso potencial na ginástica olímpica. As medalhas de ouro de Diego Hypólito, Jade Barbosa e Mosiah Rodrigues, além das tantas outras de prata e bronze, são conseqüência de um trabalho que começou com Luiza Parente, há 20 anos, e nos últimos tempos aumentou o fôlego a partir dos ótimos resultados internacionais de Daiane dos Santos e Daniele Hypólito.

Porém, enquanto o pavilhão nacional subia ao som de nosso hino e Diego era consagrado como medalhista panamericano, surgiu-me a reflexão: e se o Brasil fosse o país da ginástica olímpica?

Nas ruas deste imenso país de extensões continentais, não teríamos garotos chutando bolas de meias e tentando fazer gols em balizas improvisadas. Veríamos tablados demarcados com giz ou tijolo de construção e nesses quadriláteros observaríamos meninos e meninas fazendo exercícios de solo. Twists carpados, saltos mortais e flic flacs tornar-se-iam expressões corriqueiras em nosso linguajar. Seria símbolo de status ter aparelhos de ginástica em casa e as garotas mais cobiçadas iriam preferir os ginastas.

As camisas oficiais de clubes de futebol cederiam lugar aos collants de delegações internacionais, os homens usariam com orgulho o traje que o ginasta romeno usou nos jogos de Atenas, por exemplo. Os grupos de amigos ao invés de marcar aquele futebolzinho toda semana, combinam aquela ginástica olímpica marota numa das tantas arenas multiuso que as cidades teriam e o novo salto da Daiane ou o desempenho do Diego no final de semana seriam assuntos de mesa de bar em todas as rodinhas de bate papo.

Lembro quando em 1992, nas Olimpíadas de Barcelona, a seleção brasileira de vôlei masculino (de Tande, Giovani e Marcelo Negrão) ganhou a medalha de ouro. O futebol estava numa fase ruim, então a mídia massificou que a partir daquele momento o Brasil tornar-se-ia o “País do Voleibol”. Apesar da evolução e dos muitos títulos da equipe da era Bernardinho, a profecia não se concretizou e o futebol se manteve como seu esporte número 1.

Agora dá licença que estão me chamando. É minha vez no salto sobre o cavalo.

Lotação Total

Como balançava aquele “Icuí-Pres. Vargas”! Não é tarefa fácil estudar na Unama da BR-316. Mais um dia estava eu, em pé, no ônibus lotado, rumando ao antro do conhecimento superior. Para quem sobe na Gentil Bittencourt, quando este já está repleto de passageiros, a missão de obter a dádiva do saber ainda é mais penosa.

E lá estava eu, como sardinha enlatada na posição vertical, dividindo espaço com pedreiros, feirantes, estudantes e donas-de-casa, além de domésticas, dentre outros seres viventes no limite da pobreza. Caco Antibes descreveria tal cena como visão do inferno. Pra dizer a verdade, até cheiro de enxofre do mundo do demônio dava pra sentir, ou algo parecido, talvez suvaqueira seria o verdadeiro nome. Aquele contexto era propício para fatos inusitados como o que nestas “garranchudas” linhas relatá-los-ei:

Na parada que fica em frente à rodoviária acontece o entupimento total do coletivo. Aquele retângulo de metal sobre rodas, com cadeiras dentro e barra de ferro no alto conquistava sua plenitude quantitativa de pessoas. Neste instante um homem de meia idade, com dificuldades locomotoras aparentes e portando muletas decidiu arriscar sua entrada pela porta traseira do ônibus.

A civilidade humana promoveu um aperto maior por parte daqueles que sofriam de pé e um dos ocupantes de assentos solidarizou-se com o paralítico, cedendo seu lugar. O espaço, que já era exíguo, reduziu ainda mais, comprimindo-nos de forma sub-humana.

A viagem prosseguiu em sua mais absoluta tranqüilidade – absoluta o escambau, o aperreio era enorme – quando, em frente às obras do Entroncamento, o suposto deficiente levantou, pediu licença e andou normalmente para sair do veículo. Nisso, um negão alto e forte, que cedera o lugar ao cidadão, deu um tapa no estilo “pedala Robinho” no farsante e falou:

“-E na bundinha não vai nada, ô feladaputa? Acha que pode sacanear com a galera e ainda sair vivo? Caralho! Vai tomar no olho do teu cu.”

Perplexa e enfurecida, a turba do ônibus só faltou chamar o pseudo-manco de santo, tamanha a quantidade de insultos proferidos. Até que a condução abre a porta e, em frente ao Templo Central da Igreja Universal do Reino de Deus, o homem ergue as muletas e vibrante brada:

“-Foi milagre. Milagre!”

Desceu normalmente e seguiu para o Templo, deixando todos no ônibus boquiabertos.

Texto feito para a disciplina LPREO (Língua Portuguesa, Redação e Expressão Oral) do meu primeiro semestre no curso de Jornalismo, ministrada pelo professor Fadel.

É uma obra de ficção, portanto, qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência.