Depois do Prazer Analisada

AlexandrePires-DepoisDoPrazerNo Orkut pululam dezenas e mais dezenas de comunidades destinadas a analisar a obra de algum artista e especular significados às letras de suas canções. Engenheiros do Havaí, Raul Seixas, Legião Urbana, Chico Buarque, etc. Pensando nisso criei uma comunidade destinada a buscar a mais profunda análise do eu-lírico dos compositores deste ritmo brasileiríssimo: o pagode.

Eu criei a comunidade, mas por justiça transferi ao meu amigo, colega de faculdade e também blogueiro Luciano. Foi por merecimento, a final de contas ele fez a análise mais perfeita que alguém poderia ter feito de Depois do Prazer, a canção do Só Pra Contrariar que deu motivou a criação da comunidade. Neste tópico foi concebida a elucubração iniciada por Luciano e arrematada pela Camila Thiers. Esta postagem é dedicada a eles. Veja abaixo esta interpretação definitiva, perfeita para o pós-dia dos namorados:

Depois do Prazer (Só pra Contrariar)

Tô fazendo amor com outra pessoa
Pelo contexto da música “fazer amor” foi mal utilizado sendo preferivel nesse caso, fuder, trepar e similares, pois o eu-lirico possui um só amor verdadeiro

Mas meu coração, vai ser pra sempre seu
Submissão do eu-lirico a pessoa amada

O que o corpo faz a alma perdoa
Verso de alto cunho religioso colocando a alma acima da matéria

Tanta solidão, quase me elouqueceu
O ser humano é um ser social. O isolamento deixa qualquer um louco.

Vou falar que é amor
Vou jurar que é paixão

Crítica ferrenha a falsidade de sentimentos que impera na sociedade do séc. XXI

E dizer o que eu sinto com todo carinho
Pensando em você
Vou fazer o que for e com toda emoção

Esses três versos são uma isotopia que reforçam a idéia anteriormente exposta.

A verdade é que eu minto, que eu vivo sozinho
Uma pista da alma confusa do eu-lirico dividida entre o verdadeiro amor e os prazeres da carne

Não sei te esquecer
E depois acabou, ilusão que eu criei

Aqui o eu-lirico sofre um processo de iluminação de acordo com a doutrina budista

Emoção foi embora e a gente só pede pro tempo correr
Já não sei quem me amou
Que será que eu falei?

Confirmação dos valores Prazer Carnal VS Amor verdadeiro em conflito

Dá pra ver nessa hora que o amor só se mede
Depois do prazer

Segundo freud, o homem vive em busca do prazer ou fugindo do desprazer. O eu-lirico contraria essa ideia dizendo que o prazer não é nada perto do amor, coisa que a biblia já afirmou e que aqui reproduzo para reiterar: “ainda que falasse a lingua dos homens e a lingua dos anjos, sem amor eu nada seria”.

Fica dentro do meu peito
Reparem: fica dentro do peito, dentro da carne. Não fui usado “dentro da memória” ou similar. O eu-lírico possui desejo CARNAL. ele está dividido em seu amor.

Sempre uma saudade
Este verso é carregado de nacionalismo haja vista o termo “saudade” ser uma exclusividade de nossa língua. Isso demonstra o quanto o pagode se preocupa com cultura brasileira.

Só pensando no teu jeito
Eu amo de verdade

Sexo solitário também é amor? Afinal, ele disse que fica “só pensando”…

E quando desejo vem
É teu nome que eu chamo

O DESEJO é o vício da alma humana. Conde Drácula disse que era a vaidade, mas a vaidade é, aliás, nada mais que o DESEJO de você mesmo.
Rebato esses versos com: “eu sei é um doce te amar, o amargo é querer-te pra mim”

Posso até gostar de alguém
Mas é você que eu amo

Eis que a grande mente do compositor o leva a escrever a conclusão mais genial, de forma poética claro: o ser humano não nasceu pra ser monógamo. Como todos animais, o instinto de copular com mais de uma parceiro fala mais alto para garantir a preservação da espécie. No nosso caso, esse fator é reforçado pelo fato de sentimos prazer com a cópula. E, citando Freud novamente, nós sempre vamos, sem sombra de dúvida, viver em busca do PRAZER!

Vou falar que é amor
Vou jurar que é paixão

Aqui o poeta demonstra expressamente o seu entendimento acerca dos sentimentos humanos mais íntimos, ao citar sucessivamente o “amor” e a “paixão”, nos traz de uma forma lírica e profunda os universos distintos e complexos desses dois sentimentos.

E dizer o que eu sinto com todo carinho
Pensando em você

Aqui ele transmite toda a sua retórica e desenvoltura com o verbo, é impressionante a capacidade expressiva do poeta em expor linguisticamente seus profundos sentimentos.

Vou fazer o que for e com toda emoção
A verdade é que eu minto, que eu vivo sozinho
Não sei te esquecer
Aqui ele cava no fundo da alma seus instintos e profundas emoções, é uma abstração com nítidas influências pessonianas, tal qual Fernando Pessoa, ele oscila sua personalidade e passeia pelos heterônimos “A verdade é que eu minto(…)”, o poeta, de fato, é um fingidor.

E depois acabou, ilusão que eu criei
Como todo grande escritor/letrista, o Alexandre é um idealista, capaz de construir um imaginário poético e desmontá-lo com igual poesia.

Emoção foi embora e a gente só pede pro tempo correr
Aqui demonstra-se todo refinamento linguístico do autor ao atribuir materialidade a conceitos abstratos, percebam, a emoção vai embora, o tempo corre, é realmente belo e inspirador a forma como ele articula as palavras.

Já não sei quem me amou
Que será que eu falei?

Aqui ele se perde em seu mundo particular lírico e confuso, a abstração é tamanha que o texto se torna incognoscível às nossas inteligências, ainda limitadas.

Dá pra ver nessa hora que o amor só se mede
Depois do prazer

Por fim, depois de retornar do seu mergulho poético, o autor reune todos seus “eus”, o divino e o carnal, o romântico e o passional, o breve e o eterno numa só identidade, percebe-se a evolução, perpassando por toda dialética observada no texto, para se chegar nesta unidade poética, é um texto realmente belo e poético, ao mesmo passo, que é rico em conteúdo filosófico. Para chorar e refletir.

Entre na comunidade “Analisando: Pagode”.

P.S.: Postagem inspirada na menção desta canção neste texto do Inagaki.

Blocos Carnavalescos de Duplo Sentido

Eu até me empolgo para para participar de blocos de carnaval, mas o clima londrino desses dias chuvosos de Belém e  arredores, somado à minha falta de disposição para sacudir o esqueleto me tornam um cara que não aprecia a folia momesca em sua plenitude. Não passo de um voyeur do carnaval. Gosto de ver os blocos, assistir os desfiles do Rio (na TV) e no máximo apontar os indicadores para cima na hora do ala-la-ô. Tudo além disso foge à minha natureza.

Sou mangueirense e gosto de ver a Mangueira entrar (no bom sentido, é claro). Aprecio sambas e sambas-enredo, além disso me especializei em avaliar todos os quesitos de cada agremiação que atravessa a Marquês de Sapucaí, bem como, nutro uma capacidade impressionante de me indignar com os jurados no dia da apuração. O carnaval de Belém já teve seus tempos de destaque na década de 80, quando só perdia em popularidade para os célebres do Rio e de Salvador. Hoje a profusão de papel celofone e cartolina que é apresentada na Aldeia Cabana (avenida do samba na cidade) ao invés de animar é capaz de causar depressão nos brincantes.

O que pode ser marca do renascimento carnavalesco na capital são os blocos insurgentes pela cidade e são herdeiros do célebre Afoxé do Guarda Chuva Achado, que agitou a mangueirosa nos anos 80. Além do Filhos de Glande e do Cordão do Peixe Boi (esse não é um bloco de carnaval, mas é como se fosse), uns outros dois ou três blocos fazem a alegria da cidade durante o carnaval. Tem também o Mangal dos Urubus – iniciativa do dono do bar The Beatles e seus frequentadores mais assíduos. Todos esses blocos são muito legais (para quem gosta de carnaval, claro).

Eu me divirto mesmo é com os de duplo sentido, que viram piadas entre amigos, nas mesas de bar e nas repartições. Só para exemplificar, farei a lista de alguns dos mais engraçados nomes de blocos que percorrem a cidade:

  • Filhos de Glande
  • Bloco Hidráulico Carnavalesco do Xiri Relampiando
  • Piriquitão
  • A Cobra não morde. Pica
  • Toco Cru Pegando Fogo
  • Põe Tucupí no meu Pacú
  • Tico Mia, do Tapanã
  • Associação Bloco Carnavalesco Chupicopico (esse disputa o carnaval oficial da prefeitura)

Essa lista não exaure a inúmera quantidade de nomes fantásticos que a criatividade do paraense criou. Quem souber mais nomes que eu não tenha citado, por favor, inclua nos comentários.

Texto atualizado do que originalmente foi publicado em 31.01.2008

A Mina de Fé

Chegou exausto em casa após uma partida de futebol com os amigos. De tão cansado, nem tomou banho e foi se deitar. Dormiu cedo, o que não é de seu feitio. O sono foi interrompido pelo bip do celular. Era mensagem de uma ex-namorada com quem havia perdido contato há muito tempo.

Ela queria notícias, sonhara com ele e foi um sonho ruim. Ele respondeu a mensagem imediatamente e logo combinaram de se encontrar. Na mente pervertida dele isso era um pretexto. Esse papo de ter sonhado com a pessoa é mais velho que a posição de defecar, pensou. Ele tinha certeza que do reencontro aconteceria um tórrido romance regado ao bom e velho sexo louco estilo africano.

Chegaram juntos no local marcado. Era o mesmo da época em que namoravam. O dia estava ensolarado. Os olhos de ambos brilhavam, as mãos se entrelaçavam e os sorrisos transbordavam. Não demorou muito e já estavam conversando como se nunca tivessem se afastado e o papo fluiu tranqüilo. Ambos estavam curiosos e trocavam perguntas.

Em dado momento ele perguntou se ela estava solteira. Ela respondeu com o gesto de cabeça que denota afirmação, pausou a fala e fez aquela expressão feminina internacionalmente conhecida como cara de me beija. Ele sabia ser aquele o momento de dar o bote e liquidar a fatura. Em um “culhonésimo” de segundo ele decidiu seguir em frente e obedecer ao pedido feito pela expressão corporal dela.

Se fosse uma partida de futebol narrada pelo Galvão Bueno, certamente o locutor global diria que a bola passou por sobre a trave após o chute. O beijo foi simplesmente rejeitado com um jogo de cintura de um boxeador que foge do cruzado de direita. Assustada, ela disse que havia uma grande confusão nisso tudo. Ela confirmou que estava solteira, mas que havia outro alguém na vida dela.

Ela o descreveu como um barbudo, de longas madeixas castanhas e olhar profundo. Ele questionou se Ele é hippie, já blasfemando todo o movimento contracultural dos anos 60. Ela negou e disse o nome Dele: Jesus. O desejo de não acreditar no que estava se configurando diante de seus olhos o fez supor que o rapaz mencionado pudesse ser um bailarino latino-americano.

Ele não percebeu as iniciais maiúsculas nos pronomes que ela usava para se referir ao Homem. Depois de muita conversa, e nenhum beijo, ela explicou que o referido Jesus é filho de Deus e que ela havia se convertido para a Igreja Quadrangular. Ela se dizia feliz. Convertera-se após uma frustração amorosa com o namorado posterior a ele. Tornara-se evangelizadora e o interesse que ela nutria por ele nada tinha a ver com a carne e sim com o espírito.

Conversaram um pouco mais, só para não dar muito na vista a decepção mútua. Não demorou muito e ele se despediu com um beijo no rosto – por opção dela – e foi embora com um ar de fracasso. Meses depois ela o convidou para um retiro espiritual. Ele recusou, preferiu o Pagode do Hilário. Nunca mais se reencontraram.