Iracema Flamejante

Era uma tarde normal na Unama. Como de praxe muita gente havia faltado àquela aula monótona de terça-feira. O professor de Filosofia do Direito ministrava a sua matéria para os poucos alunos que estavam, heroicamente, lá.

Sentara-me ao lado de um amigo portador do defeito (ou qualidade, dependendo do referencial) de ser muito paquerador, que me apontou para algo que chamava mais atenção do que as teorias dos pensadores gregos, e não era a vontade de sair de sala.

Morena dos lábios de mel, os cabelos mais negros que a asa da graúna e mais longos que seu talhe de palmeira. Tínhamos praticamente uma índia alencarina, só que de olhos verdes, no recinto de obtenção do saber jurídico. Ela parecia ser da minha altura e, diferentemente de nós, sorvia cada palavra do professor como se fossem as ultimas gotas de mel.

Estranho alguém se interessar tanto por esta matéria, comentei com meu amigo. Tal observação foi uma ilha em meio à manifestação de nossos pensamentos contemplativos e maliciosos em relação aos atributos físicos da beldade presente na primeira carteira da primeira fila da esquerda.

Não demorou muito para a aula findar. Parece a distração ter acelerado os ponteiros a ponto de nem percebermos o passar das horas. Era chegado o momento de aplicar o que confabulávamos instantes antes. Só faltava decidir quem a abordaria na saída.

Em virtude de seu desprendimento em detrimento de minha oportuna timidez, ele foi ter com a garota ao lado da escada, no corredor. Aproveitei para me posicionar de maneira minimamente distante para não fazer parte do diálogo mas não tão longe a ponto de ouvi-los nitidamente.

Obstinado, parecia aquela ser a “mulher de sua vida” da semana. Iniciou o papo oferecendo carona na volta para casa, se dispôs a ajudá-la nas disciplinas em que ela tivesse dificuldades e fez perguntas genéricas.

Descobriu que ela não cursa Direito e só assistiu àquela aula por curiosidade científica na matéria. Eis que ele pergunta: O que você estuda?

Pajelança. Serenamente foi a resposta dada.

Pajelança!? Espantou-se. Neste momento não pude me conter e, mandado a discrição para a cucuia, indaguei de onde estava: como assim Pajelança?. O interlocutor da conversa, em ato mecânico, repetiu: como assim?

E, num ato fantástico, a moçoila inclinou o corpo para frente, alongou os braços para trás e soprou uma labareda enorme que saia de sua boca.

Algo semelhante ao yoga-flame do personagem Dhalsim (Street Fighter II). Era impressionante a quantidade de fogo emanada.

Meu amigo, aterrorizado, partiu em disparada para fora da Universidade.

Eu acordei suando muito.

Belém tem entardecido muito quente esses dias

Relato de um sonho tido na manhã do último sábado.